Perder para encontrar-se
Houve um momento
em que perdeu as pegadas.
Perdeu tudo o que levava
ancorado às suas costas:
os velhos paradigmas,
as formas,
as máscaras,
a vergonha,
a culpa,
os disfarces,
e a gramática.
Perdeu as horas e o relógio,
o calendário e as esperas,
os anseios e as certezas.
Perdeu tudo aquilo que foi,
tudo o que inutilmente esperou,
tudo que desejou e caminhou,
e tudo o que restava no acostamento.
E assim, perdendo tudo
também perdeu o medo,
o medo dos julgamentos
e dos ferozes auto-julgamentos,
o medo da morte
o medo da vida,
o medo de perder-se, o medo de perder...
E despida de tudo
desprendida de sua velha pele,
encontrou um coração
funcionando por si próprio
ressonando em cada poro de seu ser
um tambor profundo
de barro, estrelas e raízes
ressoando desde dentro
com voz de anciã-menina
que a recordava
batida a batida,
que estava viva,
eternamente viva,
e que era livre,
valentemente livre!
(Ada Luz Márquez- tradução minha)
No comments:
Post a Comment