A beleza da manhã de maio invade
o apartamento. Precisava livrar-se daquela dor. Abre a torneira e segue com a
mangueira até a sacada. Espera que não seja tão tarde e o sol ainda esteja
fresco. Vai regar as plantas agora?, pergunta sua filha. Ela não responde, aproveitando a posição confortável de quem tem o fone encaixado
nos ouvidos. Exercitava a grandiosidade de dizer apenas o
essencial, num silêncio típico de casulo: aparentemente tranquilo, com
transformações surpreendentes do lado de dentro.
O jardim de sua sacada, que
extrapolava os limites externos do edifício pelo acúmulo de vasos, arbustos,
trepadeiras, flores e mudas, era sua terra e seu céu. Ela puxa a cadeira e sobe
para conseguir alcançar as plantas que ficam nas prateleiras altas. Sempre
tivera pouca estatura e por isso, utilizar bancos e cadeiras para alcançar
determinada altura lhe parecia algo bastante natural. Até quando subiria com
esta agilidade? Perguntava-se, ao sentir uma leve pontada no joelho de 47 anos. Organiza
a cadeira de madeira maciça no mesmo lugar de sempre, de onde é capaz de regar
as samambaias, as jiboias e os vasos de ora-pro-nobis que passeiam pela treliça
do teto, organizada para este fim. Suas
gatas correm para a sala e deixam pegadas molhadas no piso de cerâmica.
Inicia a rega pelos vasos maiores
das velhas habitantes daquele lugar que, com o cultivo dos anos, tornou-se sagrado.
Conversa com todas as plantas. Cumprimenta e se surpreende com as novidades de
cada uma. Sua dedicação parece ser sentida e retribuída. O jardim está
lindamente florido. Primavera em meio àquele outono-pandemia. A dor de seu
coração desaparecia sempre que cumpria a agradável tarefa de cuidado de seu
jardim. Seu espaço encantado. Lá existia um não-tempo que, em forma de
barreira, impedia a entrada de qualquer dor. Recinto
onde podia dedicar todo o cuidado que não havia recebido naquele rompimento.
Retira, com um leve toque dos
dedos, algumas folhas secas que estavam prestes a se soltarem. Podia ser
simples e rápido assim limpar a alma e o coração. Um simples movimento levaria
para sempre o que já estava pronto para cair e adubar outras histórias. Precisava
livrar-se daquela dor. Escuta o barulho de algo que as
gatas derrubaram na sala. Interrompe seu trabalho para recolocar a caixinha de
música junto das outras. Antes de devolvê-la ao móvel, gira sua manivela e
sorri ao som da valsa de Amèlie, sob o olhar desconfiado das gatas.
Retoma sua atividade cantarolando
baixinho a continuidade da música. Agora o cuidado é dirigido às roseiras, meninas
de seus olhos. Ajusta o jato d´água para um banho mais delicado naquelas que têm
sido a grande alegria de seus dias de isolamento. Todo cuidado é pouco, repetia
constantemente. A palavra "cuidado" passara a ser, naqueles longos dias, companheira consciente de suas atitudes. Quem sabe assim seria possível dissipar o descuido que lhe destroçara tão
profundamente. Chega às rosas brancas. Enquanto rega, começa a cantar uma
canção alegre, mas não percebe alegria em sua voz. Cala-se. Uma pétala se
solta e cai no vaso. Ela acompanha com atenção o desapego da rosa. E promete que
na próxima relação estará mais vigilante à jardinagem de si.
Nos vasos das roseiras pequenas,
alguns matos indesejados brotam. Ela os retira com dois ou três dedos. Saem com
facilidade. Um deles pede maior esforço. Usa a mão inteira, a terra do vaso é
revolvida e ele se rompe, sem sair por completo. Ela precisa liberar-se
daquela dor que lhe corrói a alma. Força novamente a retirada do mato. Suas
atitudes, agora mais bruscas, puxam com força o toco e as raízes daquele
inofensivo vegetal. Não sai, por mais que se esforce. Ela precisa livrar-se
daquela dor. Sente um aperto no peito. Um mal estar se apossa de seu coração na
mesma velocidade em que um pássaro voa próximo ao galho de melissa e deixa para
trás seu canto de cidade. A dor havia conseguido atravessar o bloqueio de seu
espaço sagrado. Pôs-se a chorar. Quando conseguiria libertar-se daquilo?
Senta-se no chão gelado e
molhado, apoia os braços e a cabeça nos joelhos e permanece nesta posição por
alguns minutos. Olha para o lado e encontra seu “berçário”, local em que deixa
as plantas em processo de cura de intervenções drásticas e as mudas que demandavam
cuidados especiais. Repara o arbusto podado radicalmente há algum tempo. Ela
manejava melhor a impermanência das plantas que de suas relações. Demonstrava
talento para suportar ambiguidades e surpresas advindas daqueles seres verdes.
Desenvolveu ao longo dos anos de jardinagem a capacidade de sustentar situações
sem reciprocidade, em que apenas a determinação e paciência daquele que cuida retroalimenta
o hábito de jardinar.
Brotos novos são percebidos no arbusto cortado.
Outros mais abaixo. Que lindeza! Vem ver, filha! Achei que não resistiria! Nada
como o tempo, repetia para si. A esperança daquelas minúsculas folhas trouxe
alívio à dor oca que invadira seu templo sagrado. Nada como a magia do tempo,
corrigiu. Lembrou-se de uma frase que certa vez, em meio a uma peça de teatro, tocara seu coração de jardineira: "A espera é o tempo preparando o destino".
Quanto tempo havia se passado? Seu
calendário já não reconhecia a linearidade dos dias. Tirou o celular do bolso e
abriu o aplicativo para certificar-se da data da última comunicação. O dedo
sujo de terra esbarrou no ícone de chamada. Desligou apavorada. Tarde demais.
Recebe uma mensagem: Você me ligou? Horas de conversa se seguiram. Brotos
verde-claro surgem em seu coração.







