19.5.20

Jardinagem



A beleza da manhã de maio invade o apartamento. Precisava livrar-se daquela dor. Abre a torneira e segue com a mangueira até a sacada. Espera que não seja tão tarde e o sol ainda esteja fresco. Vai regar as plantas agora?, pergunta sua filha. Ela não responde, aproveitando a posição confortável de quem tem o fone encaixado nos ouvidos. Exercitava a grandiosidade de dizer apenas o essencial, num silêncio típico de casulo: aparentemente tranquilo, com transformações surpreendentes do lado de dentro.

O jardim de sua sacada, que extrapolava os limites externos do edifício pelo acúmulo de vasos, arbustos, trepadeiras, flores e mudas, era sua terra e seu céu. Ela puxa a cadeira e sobe para conseguir alcançar as plantas que ficam nas prateleiras altas. Sempre tivera pouca estatura e por isso, utilizar bancos e cadeiras para alcançar determinada altura lhe parecia algo bastante natural. Até quando subiria com esta agilidade? Perguntava-se, ao sentir uma leve pontada no joelho de 47 anos. Organiza a cadeira de madeira maciça no mesmo lugar de sempre, de onde é capaz de regar as samambaias, as jiboias e os vasos de ora-pro-nobis que passeiam pela treliça do teto, organizada para este fim.  Suas gatas correm para a sala e deixam pegadas molhadas no piso de cerâmica.

Inicia a rega pelos vasos maiores das velhas habitantes daquele lugar que, com o cultivo dos anos, tornou-se sagrado. Conversa com todas as plantas. Cumprimenta e se surpreende com as novidades de cada uma. Sua dedicação parece ser sentida e retribuída. O jardim está lindamente florido. Primavera em meio àquele outono-pandemia. A dor de seu coração desaparecia sempre que cumpria a agradável tarefa de cuidado de seu jardim. Seu espaço encantado. Lá existia um não-tempo que, em forma de barreira, impedia a entrada de qualquer dor. Recinto onde podia dedicar todo o cuidado que não havia recebido naquele rompimento.

Retira, com um leve toque dos dedos, algumas folhas secas que estavam prestes a se soltarem. Podia ser simples e rápido assim limpar a alma e o coração. Um simples movimento levaria para sempre o que já estava pronto para cair e adubar outras histórias. Precisava livrar-se daquela dor. Escuta o barulho de algo que as gatas derrubaram na sala. Interrompe seu trabalho para recolocar a caixinha de música junto das outras. Antes de devolvê-la ao móvel, gira sua manivela e sorri ao som da valsa de Amèlie, sob o olhar desconfiado das gatas.

Retoma sua atividade cantarolando baixinho a continuidade da música. Agora o cuidado é dirigido às roseiras, meninas de seus olhos. Ajusta o jato d´água para um banho mais delicado naquelas que têm sido a grande alegria de seus dias de isolamento. Todo cuidado é pouco, repetia constantemente. A palavra "cuidado" passara a ser, naqueles longos dias, companheira consciente de suas atitudes. Quem sabe assim seria possível dissipar o descuido que lhe destroçara tão profundamente. Chega às rosas brancas. Enquanto rega, começa a cantar uma canção alegre, mas não percebe alegria em sua voz. Cala-se. Uma pétala se solta e cai no vaso. Ela acompanha com atenção o desapego da rosa. E promete que na próxima relação estará mais vigilante à jardinagem de si.

Nos vasos das roseiras pequenas, alguns matos indesejados brotam. Ela os retira com dois ou três dedos. Saem com facilidade. Um deles pede maior esforço. Usa a mão inteira, a terra do vaso é revolvida e ele se rompe, sem sair por completo. Ela precisa liberar-se daquela dor que lhe corrói a alma. Força novamente a retirada do mato. Suas atitudes, agora mais bruscas, puxam com força o toco e as raízes daquele inofensivo vegetal. Não sai, por mais que se esforce. Ela precisa livrar-se daquela dor. Sente um aperto no peito. Um mal estar se apossa de seu coração na mesma velocidade em que um pássaro voa próximo ao galho de melissa e deixa para trás seu canto de cidade. A dor havia conseguido atravessar o bloqueio de seu espaço sagrado. Pôs-se a chorar. Quando conseguiria libertar-se daquilo?

Senta-se no chão gelado e molhado, apoia os braços e a cabeça nos joelhos e permanece nesta posição por alguns minutos. Olha para o lado e encontra seu “berçário”, local em que deixa as plantas em processo de cura de intervenções drásticas e as mudas que demandavam cuidados especiais. Repara o arbusto podado radicalmente há algum tempo. Ela manejava melhor a impermanência das plantas que de suas relações. Demonstrava talento para suportar ambiguidades e surpresas advindas daqueles seres verdes. Desenvolveu ao longo dos anos de jardinagem a capacidade de sustentar situações sem reciprocidade, em que apenas a determinação e paciência daquele que cuida retroalimenta o hábito de jardinar. 

Brotos novos são percebidos no arbusto cortado. Outros mais abaixo. Que lindeza! Vem ver, filha! Achei que não resistiria! Nada como o tempo, repetia para si. A esperança daquelas minúsculas folhas trouxe alívio à dor oca que invadira seu templo sagrado. Nada como a magia do tempo, corrigiu. Lembrou-se de uma frase que certa vez, em meio a uma peça de teatro, tocara seu coração de jardineira: "A espera é o tempo preparando o destino".

Quanto tempo havia se passado? Seu calendário já não reconhecia a linearidade dos dias. Tirou o celular do bolso e abriu o aplicativo para certificar-se da data da última comunicação. O dedo sujo de terra esbarrou no ícone de chamada. Desligou apavorada. Tarde demais. Recebe uma mensagem: Você me ligou? Horas de conversa se seguiram. Brotos verde-claro surgem em seu coração.

14.12.17


Eu vibro na LUZ 
Eu vibro no RESPEITO
Eu vibro na LEALDADE
Eu vibro no CUIDADO
Eu vibro na VERDADE
Eu vibro na CONFIANÇA
Eu vibro na DIGNIDADE
Eu vibro na RESPONSABILIDADE
Eu vibro na FIRMEZA DE CARÁTER
Na CLARIDADE, caminho.

30.8.17

#partiumarte


Em Marte, a sabedoria repousa inquieta no meu coração.
Seguramente meu corpo daria alguma resposta àquela desconexão. 


A medicação era injetada no equipo gentilmente perfurado, enquanto eu embarcava na retrospectiva intergaláctica dos últimos dias, anos e milênios: as lágrimas eclipsadas na despedida, o apoio àquela viagem, o carregamento de coragem, a hora da partida... A cena se congela no momento em que o contato se desfaz. Equipamentos eletrônicos combinam uma pane para não enganar o adeus e a desconexão se inicia.



Aqui em Marte não enxergam minhas flores, tampouco me sinto à vontade para mostrá-las todas. Minhas cores se intimidam e surgem em tons mais brandos que o habitual. Entretanto, permito-me viver a experiência de ser semente, crente no sabor do fruto do porvir, ainda que à noite me enrole no cobertor roxo para receber um pouco de aconchego. Sinto falta dos detalhes cuidadosos do meu bosque. Inspiro profundamente.



- Este medicamento pode causar um breve mal-estar.- escuto o enfermeiro.



Viro o rosto, leio seu nome nas letras miúdas do crachá e respondo num suspiro:



- Está tudo certo, Valdivino...


27.6.17

Florada



Cultivou beleza em meu corpo
Escreveu sutilezas em minha alma
Ampliou minha vida e vocabulário
Desde então sou flores
E exalo o seu cheiro doce

21.6.17

Quiromancia



Meu Rio Branco
Meu Palo Santo
Meu raio de Lua
Meu chá de hortelã
Meu amor
Nossa viagem
Meu cuidado
Seu cuidado
Minhas flores
Nossa paz
Abayomi que permanece
Seu abraço
Seu carinho
Meu nome na sua boca
O sorriso dos seus olhos
Minhas brechas mais floridas
Suas palavras
Meus nãos
Meu sim
Sua nobreza
Minhas raízes
Meu adeus
Meu sempre
Sua clareza
Seu respeito
Sua ajuda na partida
Seus emojis 
Carrego tudo comigo
Na linha interrompida da palma da minha mão.

Romaria


Hoje acendi duas velas:

Uma para o você que está em mim
Outra para que o nós que me habita
auxilie a arrumação do meu eu.

8.6.17

Eternidade



Extasiada, reverencio as rosas brancas que colocaram-se sob meus pés desde sua chegada.
Embevecida, reverencio a beleza e proteção das asas coloridas que nos envolvem.
Meus olhos reverenciam toda poesia do seu jeito de ser.
Meus ouvidos reverenciam o cuidado e carinho em cada palavra presenteada.
Minhas mãos reverenciam sua pele de sabor doce e perfume suave, já impregnados no meu corpo.
Plena, minha alma reverencia sua presença em meu salão dourado.
Meu coração reverencia e se exalta com a nobreza do seu amor.
Meus beijos reverenciam sua boca...
E acordo te amando mais pela manhã.