4.10.07

Cadê meu óculos?

Tem dias em que acordo despida do romantismo que me é inerente.. Confesso que esses dias não são nada bons. Tinha tempo que não me sentia assim...
Ver a vida nua e crua, o lado duro e cruel da realidade: a distância que separa rotinas de quem se gosta, ou a rotina que distancia quem se gosta... as contas que não param de chegar, cobranças em todos os aspectos da vida, a insustentabilidade de um amor inventado...
Aí eu fico mal. Meu corpo dói. Quero deitar e dormir. Mas olho pro relógio e é hora de fazer tudo. Tudo o que só eu posso fazer por mim. É hora de trocar a torneira que está vazando, arrumar a porta do armário, corrigir provas, visitar escolas, dar aula, levar filha ao médico, ao dentista, ir ao banco, checar emails, verificar a tarefa da filha, planejar tratamentos, levar o cachorro ao veterinário, filha na escola, trocar pneu porque furou no meio da correria, escrever projetos, fazer compras, planejar aula, organizar cardápio, preparar cursos, arrumar lanche, pagar contas, pagar funcionários, levar, buscar, comprar, fazer, testar, organizar, finalizar, concluir, entregar, atender...afff!
Cadê meu óculos cor-de-rosa????????

18.6.07

AGRIDOCE

Estou aqui há algum tempo, tentando identificar um sentimento. Dar nome mesmo. Nomear para atribuir um estatuto de realidade, porque eu sei que existe, afinal, está aqui, comigo.
É fato que eu já estou acostumada com minha nova vida de solteira: (digo nova, porque estar solteira onze anos atrás era bem diferente) lugar diferente, tempo e pessoas diferentes e programas igualmente diferentes. Acho isso muito legal. Contudo, apesar de já estar imersa neste momento e permanecer por aqui, às vezes me sinto como um stranger...
Não tem jeito! Acabo sempre caindo na mesma balela do amor romântico. A natureza fugaz dos relacionamentos de hoje nem sempre são totalmente digeridas, por mais que me esforce pra isso. O que também não significa não reconhecer que uma noite não possa ser boa. Pelo contrário. Pode ser ótima, e dependendo do momento, maravilhosa.
Mas o que acontece é que de repente uma dessas noites me deixou assim, exatamente como estou hoje. Não pelo fato de ter sido delicioso estar acompanhada, ou por estar acompanhada desta ou daquela pessoa, mas principalmente pelo fato de me sentir, de alguma forma, “em casa”, apesar de desconhecer o terreno, me sentir acolhida apesar do abraço não ser meu.
Carência?
Impulsividade?
Imediatismo?
Solidão?
Viagem? Exagero? Medo?
Melodrama?
Invenção?
Saudade?
Saudade de amar?
É... acho que estou chegando perto da definição... É isso. Aquele abraço, aquele aconchego me pegou de surpresa e fez lembrar como é bom amar e ser amada. De certa forma, me escancarou a solidão em que vivo, mas que há tempos já nem percebia.
Aí vem a realidade e me mostra que aquele abraço, aquela presença que desencadeou tudo isso também é desse “novo lugar” em que as coisas passam rápido, os sentimentos e relacionamentos mais ainda...
Vem o dia seguinte e me prova de forma doce e carinhosa o tamanho da minha solidão.
Foi bom ? M.U.I.T.O.
Mas deixou uma lembrança agridoce: a doçura do momento associada à acidez do desvelar da minha situação.

20.4.07

Seja amor ou love

 love ou amor

 tome antes um engov

 depois um anador

 (Marcos Caiado)

12.4.07

Doces e cruéis verdades IV

Tenho saudades da época em que abria minha caixa de correspondências e encontrava... cartas!

Salve, salve Dostoiévski!

"...para se proceder com inteligência, a inteligência só não basta."

27.3.07

Nove degraus



Nove degraus... era tudo o que precisava descer pra chegar até lá. Ficou descalça e sentiu o cimento áspero e frio nos seus pés, apesar do sol da manhã.
Lentamente desceu. Um por um, enquanto olhava o horizonte. Via o sol nascendo. Quando chegou, estranhou. Que lugar era aquele que sua consciência a levara? Lugar grande, plano, de terra vermelha, muito seca, com alguns tufos daqueles matos rasteiros que nascem sobre qualquer solo. Aquela visão lhe lembrava a imagem de um cemitério em uma região árida. Era isso: um cemitério sem cruz.
Então ela se sentou e cavou com suas mãos o lugar onde deixaria a única semente que guardava desde que descia a escada. Ela a carregava com tanto cuidado que parecia ser a última vez que faria aquilo, como se fosse a última semente de azaléia existente.
Quando terminou de plantá-la, a terra que revolveu parecia mais úmida, apesar do sol no zênite. Neste instante desviou o olhar do horizonte para seu lado. Um campo de azaléias estava ali, todo florido. No mesmo instante já estava lá, andando como se reconhecesse o lugar. Ali também era dela, também era ela. Lá se sentia em casa. O cheiro fresco e úmido lhe enchia o peito. A sensação de rever o que não via há muito tempo não lhe tirava o sorriso dos olhos.
Neste momento, voltou seu olhar à direção de onde havia entrado e se entristeceu. Um único pensamento lhe ocorria: Como pôde ter deixado aquele lugar daquele jeito? O contraste de vida e morte era tão real...
Decidida a tomar medidas urgentes, olhou a cena novamente. O sol se punha. Subiu os nove degraus entre os reflexos dourados do sol e saiu de seu coração.
(12/03/07)

Doces e cruéis verdades II

Difícil é ter esperança sem ansiedade!

Doces e cruéis verdades I

Nunca ataque quando estiver com TPM. Você pode chorar compulsivamente por meia hora após um contra ataque! rss

23.1.07

Entre Príncipes Encantados e Super-Heróis

Estava aqui lembrando... Dias atrás iniciei uma desconstrução do meu Complexo de Cinderela, que apesar de ser muitas vezes negado, creio que um mooooonte de amigas me acompanham nestas minhas expectativas femininas.
Pois bem, quando se desconstrói algo, é preciso ocupar o lugar desconstruído. Por isso, estou desenvolvendo um outro complexo, bem melhor de se viver, exatamente por não envolver príncipes! hehe
Decidi que prefiro sofrer do Complexo de Lois Lane! É muito mais a minha cara!
As Lois Lanes trabalham e tem uma vida independente do Super Herói da sua vida. As Cinderelas, não! Passam a vida esperando o Príncipe Encantado, e quando o encontram, vivem o resto dela se alimentando das lembranças daquele príncipe do começo da história...
Além disso, Príncipes Encantados e Super Heróis são bem diferentes. Super Heróis são animados, agitados, aventureiros, impulsivos, talvez. Fazem bem a todos. Alegram e enchem de suspiros suas namoradas e encantam todos ao redor. Eles são heróis. Os Príncipes Encantados são celebridades. Querem agradar a princesa... e só. Pense bem... você já viu um príncipe fazer alguma graça pra algum anãozinho ou para os pais das princesas? Em compensação, Super Heróis salvam a humanidade!
Príncipes Encantados são mauricinhos, podem te dar um castelo e querem uma mulher para casar. Super Heróis são autênticos, tem um "estilo próprio" (um pouco extravagante, às vezes, é verdade!), podem te dar uma vida apaixonante, inesquecível e querem uma mulher para amar.
Príncipes Encantados só namoram princesas no sentido quase literal da palavra. Super Heróis namoram e se apaixonam por mulheres normais, que levam uma vida normal.
Conhecer um Príncipe Encantado é a maior canseira! Pra começar você tem que ser convidada para o tal baile, tem hora marcada, data escolhida, roupa assim ou assado... Por Super Heróis você não precisa procurar! Eles estão aí, por toda parte! Super Heróis aparecem de repente, mas sempre no momento exato! Surgem na sua vida do nada. Você pode encontrá-lo no trabalho, na praia, num ônibus às sete horas da manhã ou escalando um prédio!
Super Heróis aparecem. Príncipes Encantados fazem as princesas esperarem.
Super Heróis tem inimigos, eu sei. Mas te dão uma vida cheia de aventuras e quando você menos esperar estará lá, voando, saltando ou nadando com aquela criatura! Super Heróis tentam salvar o mundo e salvar seu amor. Se for preciso, podem até voltar o tempo girando a Terra ao contrário (lembram daquela cena?)
Príncipes envelhecem a alma. Te carregam no colo, eu sei. Mas e depois? Te levam pra um castelo, sentam no trono e esperam que você seja a rainha (do lar?????!!).... E os saltos? As fugas? Os risos? As chuvas? As histórias para contar pros netos depois que o corpo envelhecer?
Cinderelas são capazes de esperar 100 anos por seu Príncipe Encantado. Lois Lanes não esperam. Se o Super Herói não volta ou demora demais, ela logo trata de arranjar um filho, namorado ou casamento. São mais realistas...
É! Acho que me convenci!
: )

8.1.07

Um colar, um brinco, o mais puro cristal (retirado debaixo da terra e energizado por índios) e um martelo sem cabo. Pronto. Estava tudo ali. Tudo o que ela precisava fazer era se desfazer daqueles objetos que, mesmo guardados, quase escondidos, faziam questão de gritar sua existência.
O brinco, o cristal e o colar já haviam sido separados quando o martelo berrou sua presença no fundo de uma caixa . Aliás, de todos os objetos, esse era o que melhor se configurava como a metáfora perfeita de seu dono: um martelo sem cabo. Pesa. E não serve pra nada. O que fazer com um objeto desses? A resposta veio-lhe rápido à mente: jogar fora, é claro! Ela já havia carregado aquele martelo por muito tempo!
Mas ela não podia jogá-lo em um lugar qualquer. Por isso passou a procurar por um rio de fácil acesso, pois aquelas presenças não valiam a busca de um lugar legal. Ela então encontrou o lugar ideal: um córrego. Sujo e fundo, de uma cidade pequena e pobre de espírito.
Foi lá, retirou os objetos do carro. Ficou na pontezinha olhando para aquelas presenças pela última vez. Um aperto se fez em seu coração. A vontade de guardá-los novamente QUASE passou por seu coração...
Ploft!
Como todo "martelo sem cabo", aquele ajudou a afundar tudo o que estava com ele. Ela olhou a forma do córrego voltar ao normal e um misto de alívio e vazio tomou conta de sua alma. Virou as costas, entrou no carro e chorou durante 15 minutos.
Depois respirou fundo, sorriu e secou os olhos, certa de que era a última vez que chorava aquelas lembranças.