30.8.17

#partiumarte


Em Marte, a sabedoria repousa inquieta no meu coração.
Seguramente meu corpo daria alguma resposta àquela desconexão. 


A medicação era injetada no equipo gentilmente perfurado, enquanto eu embarcava na retrospectiva intergaláctica dos últimos dias, anos e milênios: as lágrimas eclipsadas na despedida, o apoio àquela viagem, o carregamento de coragem, a hora da partida... A cena se congela no momento em que o contato se desfaz. Equipamentos eletrônicos combinam uma pane para não enganar o adeus e a desconexão se inicia.



Aqui em Marte não enxergam minhas flores, tampouco me sinto à vontade para mostrá-las todas. Minhas cores se intimidam e surgem em tons mais brandos que o habitual. Entretanto, permito-me viver a experiência de ser semente, crente no sabor do fruto do porvir, ainda que à noite me enrole no cobertor roxo para receber um pouco de aconchego. Sinto falta dos detalhes cuidadosos do meu bosque. Inspiro profundamente.



- Este medicamento pode causar um breve mal-estar.- escuto o enfermeiro.



Viro o rosto, leio seu nome nas letras miúdas do crachá e respondo num suspiro:



- Está tudo certo, Valdivino...