27.3.07

Nove degraus



Nove degraus... era tudo o que precisava descer pra chegar até lá. Ficou descalça e sentiu o cimento áspero e frio nos seus pés, apesar do sol da manhã.
Lentamente desceu. Um por um, enquanto olhava o horizonte. Via o sol nascendo. Quando chegou, estranhou. Que lugar era aquele que sua consciência a levara? Lugar grande, plano, de terra vermelha, muito seca, com alguns tufos daqueles matos rasteiros que nascem sobre qualquer solo. Aquela visão lhe lembrava a imagem de um cemitério em uma região árida. Era isso: um cemitério sem cruz.
Então ela se sentou e cavou com suas mãos o lugar onde deixaria a única semente que guardava desde que descia a escada. Ela a carregava com tanto cuidado que parecia ser a última vez que faria aquilo, como se fosse a última semente de azaléia existente.
Quando terminou de plantá-la, a terra que revolveu parecia mais úmida, apesar do sol no zênite. Neste instante desviou o olhar do horizonte para seu lado. Um campo de azaléias estava ali, todo florido. No mesmo instante já estava lá, andando como se reconhecesse o lugar. Ali também era dela, também era ela. Lá se sentia em casa. O cheiro fresco e úmido lhe enchia o peito. A sensação de rever o que não via há muito tempo não lhe tirava o sorriso dos olhos.
Neste momento, voltou seu olhar à direção de onde havia entrado e se entristeceu. Um único pensamento lhe ocorria: Como pôde ter deixado aquele lugar daquele jeito? O contraste de vida e morte era tão real...
Decidida a tomar medidas urgentes, olhou a cena novamente. O sol se punha. Subiu os nove degraus entre os reflexos dourados do sol e saiu de seu coração.
(12/03/07)

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