30.11.16

Lótus de Lá


Fechei a porta e chorei.
Foi necessário me machucar para conseguir fechar aquela porta.
Mergulhei em água parada. 
Sou Sol, sou fogo, sou cachoeira. Não posso ficar nesse lugar. 
Não sou desse lugar. Não me reconheço nele.
Para fugir da dor, usei a pior das táticas: fechei os olhos. Mergulhei cega onde não devia, num lugar que não é meu e onde não queria estar.
Inebriada, não conseguia sair. A cada tentativa, mais fragilidades vinham à tona. Quanto mais encobria a dor velada, mais me afundava num Mar de lama.
Maremotos invadiam meus sonhos e minha casa. Era necessário morrer e renascer.
À flor da pele, meus olhos marejam.
Porta fechada.
Arrumo a casa.
As lágrimas que caem devolvem movimento às minhas águas.
A água flui. 
O Sol brilha.
Suavizo meu vento... sou brisa!
Renasço da lama e me perfumo com flor de lótus.
Estou em paz. 

9.11.16

Zênite


Vem! Vamos!
Me dê sua mão
Tire o relógio
Desligue o celular
Vamos juntos
Subir todos os degraus 
desse encontro
Viver cada milímetro
desse amor
Vem! 
O sorriso-combustível abastece 
a cumplicidade do olhar
Vem comigo nessa viagem
Juntos nesse não-tempo
Em que tudo é beleza e prazer
Vamos!
Dance comigo
Celebremos nossas noites de sol
com flores no cabelo
e fogo líquido
de uma fogueira de Beltane 
que arde do lado de dentro
Nos conduzimos rápido
mais alto
Mais
E mais
...
Ignorando os alarmes
Seguiram em êxtase 
até atingirem o topo.
Ela recuou.
Se olharam.
- Não posso seguir. Há um precipício à frente.
- Eu já passei da linha, não vê? Já estou do outro lado...
- Volte! - retrucou, puxando sua mão.
Era preciso recuar. Ele também sabia.
Abraçaram-se desesperadamente. 
Beijaram-se sedentos
certos de que aquele poderia ser o último dos beijos.
Reconheceram-se.
Encontraram-se um no outro,
Potencializaram curas.
Deram todos os 'gracias' que puderam
e iniciaram o caminho de volta
agora por trilhas distintas.
Ela vagarosamente descia cada degrau, percebendo-se e reconhecendo a veracidade de cada sensação naquele não-lugar. Coisas transformaram-se. Aquela que descia era outra: uma leoa-águia, com flores nos cabelos, certa de seu poder, delicadeza e indubitavelmente segura de si.


2.11.16

Amor de primavera


Colosso do gozo doce
do abraço macio
do cuidado com o presente
da poesia, do chamego
da despedida travestida de encontros
Encontros no café forte
na escova de dente
no seu beijo, que é o meu
no abraçosuspirogemido
Te guardo...

01/11/2016- Caderno de desconstruções