26.7.16

Perder para encontrar-se

Houve um momento
em que perdeu as pegadas.
Perdeu tudo o que levava
ancorado às suas costas:
os velhos paradigmas,
as formas,
as máscaras,
a vergonha,
a culpa,
os disfarces,
e a gramática.


Perdeu as horas e o relógio,
o calendário e as esperas,
os anseios e as certezas.
Perdeu tudo aquilo que foi,
tudo o que inutilmente esperou,
tudo que desejou e caminhou,
e tudo o que restava no acostamento.


E assim, perdendo tudo
também perdeu o medo,
o medo dos julgamentos
e dos ferozes auto-julgamentos,
o medo da morte
o medo da vida,
o medo de perder-se, o medo de perder...


E despida de tudo
desprendida de sua velha pele,
encontrou um coração
funcionando por si próprio
ressonando em cada poro de seu ser
um tambor profundo
de barro, estrelas e raízes
ressoando desde dentro
com voz de anciã-menina
que a recordava
batida a batida,
que estava viva,
eternamente viva,
e que era livre,
valentemente livre!


(Ada Luz Márquez- tradução minha)


O pouso da águia


Cansada, ela pousou.
Era necessário fechar ciclos.
Colocou um, dois,  três, todos os portões imagináveis!
Trancou as fechaduras, cadeados e afins.
Na frente, placas e correntes alertavam:"território perigoso", para que ela não ousasse adentrar onde se machucara.
O adeus já havia sido dado.
Dor e silêncio foi o que restou.
Chorou copiosamente seu luto enquanto uma voz dentro de si gritava: Não te demores!
Sua feiticeira mesclou-se à magia do fogo e transmutou sua dor.
E então ela respirou profundamente e sem olhar para trás voou como há muito não voava.
Sentiu a vida passar por suas asas e maravilhou-se com cada 'agora' acontecendo.
A água de seu rio, outrora estancada, agora fluía viva, correndo, sentindo como o movimento lhe era caro e sagrado.
Dançou e celebrou todos os SIMs que firmou junto ao fogo da vida, do terreiro e do seu coração, prometendo a si mesma nunca mais permitir-se ferir tanto...