26.1.11

Mal de adeus

Em uma noite quente, entre estrelas e sorrisos, ele apareceu. Assim como os venusianos, aproximou-se, olhou nos olhos de Shiny e com a ponta do dedo indicador tocou seu coração. Mal sabia ela que ali começaria seu aprendizado sobre o "adeus". Foi ele quem lhe provou que isso não era tão simples como parecia...


Assim, sempre que Shiny tinha que se afastar de seu amado, antes de se distanciar, necessitava repetir a palavra "adeus" inúmeras vezes, como que para se convencer de partir. E quando se afastava, não o fazia sem olhar para trás... Desde que reconhecera seu "mal de adeus", por mais que relutasse, a mesma cena se repetia.

O tempo passou e a vida ensinou Shiny a seguir sem olhar para trás. Ela conseguiu agir assim muitas vezes. Porém, quando se tratava de seu amado, nada havia mudado. Bastava ele se aproximar para ela não querer sair dali. Shiny então percebeu que a especificidade daquele mal não estava no "dizer", mas no "a quem dizer" o adeus. Afastar-se dele ainda era difícil, mesmo quando a distância física se impunha.


Às vezes, ao caminhar feliz por conseguir seguir adiante sem olhar para trás, era ele quem a chamava (quem sabe ele também sofresse do mesmo mal?) . Esta cena também se reprisou algumas tantas vezes...


Num dia de muita chuva, ele não só a chamou, como também atravessou a longa estrada que os separavam, entrou na sua frente, no seu caminho e a olhou com um sorriso nos lábios. Shiny sorriu e levou a ponta de seu dedo ao coração de seu amado. Será que agora, enfim seguiremos juntos? pensou, esperançosa. Ele, então, lhe entregou um pote cheio de doces lembranças e os dois degustaram juntos o sabor de cada uma delas... Depois, num gesto fúnebre, a beijou e disse:"Vim aqui para dizer que não estaremos juntos. Não olhe para trás. Não será mais preciso sofrer ou querer. Eu não estarei aqui nunca mais."


Por que você veio até aqui? Para me dizer isso? Shiny perguntou, enquanto de seus olhos sangravam lágrimas. Ele não sabia responder.


Ela, mais uma vez, disse o mesmo e doloroso adeus...


Desta vez caminhou por dias a fio, brigando com suas lembranças e com o desejo de voltar. Em seu longo processo-caminho que percorria, ela seguiu se despedindo a cada passo. Apesar de haver outros caminhos, Shiny sequer os enxergava ou cogitava conhecer, presa em seu adeus.


Ela caminhava sem olhar para os lados, quando alguém a abordou e lhe mostrou uma bifurcação interessante na estrada, que ela mal tinha visto. Shiny parou, olhou e se observou: o adeus ainda estava lá, no seu avesso... Mas o caminho parecia alegre.


Olhando pra Lua cheia que iluminava aquela estrada, disse para o vento: Eis amor, não sei para onde este caminho me levará! Te agradeço e te deixo o mais precioso dos "adeus"... Aquele que você tanto me pediu!


E sem medo de a tristeza mais à frente encontrar, respirou fundo, pediu proteção aos seus guias e desbravou seu primeiro passo fora daquela estrada.


Quando o dia amanheceu, ele passou a procurar seu amuleto...

17.1.11

Retrato em branco e preto

Retrato em Branco e Preto
Tom Jobim/Chico Buarque
Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho,
E sei também que ali sozinho,
Eu vou ficar tanto pior
E o que é que eu posso contra o encanto,
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto e que, no entanto,
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes, velhos fatos,
Que num álbum de retratos
Eu teimo em colecionar
Lá vou eu de novo como um tolo,
Procurar o desconsolo,
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras,
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado,
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado e você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto,
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração