12.12.16

Desatador de nós


O amor chega de peito aberto, olha nos olhos, dá um abraço demorado e sutilmente desata o nó (e o 'nós') que impedia a partida do enrosco cármico. Com todo cuidado e delicadeza, retira da concha de suas mãos um ponto final e o ajeita no local exato, como deve ser. 


30.11.16

Lótus de Lá


Fechei a porta e chorei.
Foi necessário me machucar para conseguir fechar aquela porta.
Mergulhei em água parada. 
Sou Sol, sou fogo, sou cachoeira. Não posso ficar nesse lugar. 
Não sou desse lugar. Não me reconheço nele.
Para fugir da dor, usei a pior das táticas: fechei os olhos. Mergulhei cega onde não devia, num lugar que não é meu e onde não queria estar.
Inebriada, não conseguia sair. A cada tentativa, mais fragilidades vinham à tona. Quanto mais encobria a dor velada, mais me afundava num Mar de lama.
Maremotos invadiam meus sonhos e minha casa. Era necessário morrer e renascer.
À flor da pele, meus olhos marejam.
Porta fechada.
Arrumo a casa.
As lágrimas que caem devolvem movimento às minhas águas.
A água flui. 
O Sol brilha.
Suavizo meu vento... sou brisa!
Renasço da lama e me perfumo com flor de lótus.
Estou em paz. 

9.11.16

Zênite


Vem! Vamos!
Me dê sua mão
Tire o relógio
Desligue o celular
Vamos juntos
Subir todos os degraus 
desse encontro
Viver cada milímetro
desse amor
Vem! 
O sorriso-combustível abastece 
a cumplicidade do olhar
Vem comigo nessa viagem
Juntos nesse não-tempo
Em que tudo é beleza e prazer
Vamos!
Dance comigo
Celebremos nossas noites de sol
com flores no cabelo
e fogo líquido
de uma fogueira de Beltane 
que arde do lado de dentro
Nos conduzimos rápido
mais alto
Mais
E mais
...
Ignorando os alarmes
Seguiram em êxtase 
até atingirem o topo.
Ela recuou.
Se olharam.
- Não posso seguir. Há um precipício à frente.
- Eu já passei da linha, não vê? Já estou do outro lado...
- Volte! - retrucou, puxando sua mão.
Era preciso recuar. Ele também sabia.
Abraçaram-se desesperadamente. 
Beijaram-se sedentos
certos de que aquele poderia ser o último dos beijos.
Reconheceram-se.
Encontraram-se um no outro,
Potencializaram curas.
Deram todos os 'gracias' que puderam
e iniciaram o caminho de volta
agora por trilhas distintas.
Ela vagarosamente descia cada degrau, percebendo-se e reconhecendo a veracidade de cada sensação naquele não-lugar. Coisas transformaram-se. Aquela que descia era outra: uma leoa-águia, com flores nos cabelos, certa de seu poder, delicadeza e indubitavelmente segura de si.


2.11.16

Amor de primavera


Colosso do gozo doce
do abraço macio
do cuidado com o presente
da poesia, do chamego
da despedida travestida de encontros
Encontros no café forte
na escova de dente
no seu beijo, que é o meu
no abraçosuspirogemido
Te guardo...

01/11/2016- Caderno de desconstruções

27.10.16

Chamego de Xangô


No contraste da pele, sinto o sabor e textura da "deliciosa possibilidade" de uma história feita de epílogo, carícias e partida. Doçura e intensidade no encontro e Oxum e Xangô. Ardor ariano que acende o fogo latente da chama leonina. Mãos e corpos que se entrelaçam, alimentam  a troca pulsante de energia e carregam a bateria chamada corpo. Reconheço meu amor por mim e elevo num fogo que me faz flor e me refaz sonhadora de mim.
A vida me trouxe esse chamego bom de fervor e cuidado, de gozo e de abraços... Aceito e agradeço.
 Kaô Kabiesilê!

10.10.16

Cristalinamente


Ela limpou a  casa. Violeta e lavanda perfumavam o ambiente. Em seu corpo, cerejeiras em flor. Magia no ar...


Era preciso preparar o local para o encontro-despedida. Seu peito parecia explodir. Seus olhos brilhavam e iluminavam o sorriso constante.

Hesitou antes de soltar as flores de sua boca, mas assim que iniciou, as fadas lhe ajudaram na inteireza e verdade daquele momento envolto em brumas de magia de amor.

Seu rosto ardia, mas ela respirou fundo e prosseguiu. Olhos nos olhos.... Clara como as águas, desnudou sua alma em palavras-dedos, que o acariciaram e o agradeceram.

E ela o abraçou, feliz por poder ser, com ele, sempre o cristal de si.

26.7.16

Perder para encontrar-se

Houve um momento
em que perdeu as pegadas.
Perdeu tudo o que levava
ancorado às suas costas:
os velhos paradigmas,
as formas,
as máscaras,
a vergonha,
a culpa,
os disfarces,
e a gramática.


Perdeu as horas e o relógio,
o calendário e as esperas,
os anseios e as certezas.
Perdeu tudo aquilo que foi,
tudo o que inutilmente esperou,
tudo que desejou e caminhou,
e tudo o que restava no acostamento.


E assim, perdendo tudo
também perdeu o medo,
o medo dos julgamentos
e dos ferozes auto-julgamentos,
o medo da morte
o medo da vida,
o medo de perder-se, o medo de perder...


E despida de tudo
desprendida de sua velha pele,
encontrou um coração
funcionando por si próprio
ressonando em cada poro de seu ser
um tambor profundo
de barro, estrelas e raízes
ressoando desde dentro
com voz de anciã-menina
que a recordava
batida a batida,
que estava viva,
eternamente viva,
e que era livre,
valentemente livre!


(Ada Luz Márquez- tradução minha)


O pouso da águia


Cansada, ela pousou.
Era necessário fechar ciclos.
Colocou um, dois,  três, todos os portões imagináveis!
Trancou as fechaduras, cadeados e afins.
Na frente, placas e correntes alertavam:"território perigoso", para que ela não ousasse adentrar onde se machucara.
O adeus já havia sido dado.
Dor e silêncio foi o que restou.
Chorou copiosamente seu luto enquanto uma voz dentro de si gritava: Não te demores!
Sua feiticeira mesclou-se à magia do fogo e transmutou sua dor.
E então ela respirou profundamente e sem olhar para trás voou como há muito não voava.
Sentiu a vida passar por suas asas e maravilhou-se com cada 'agora' acontecendo.
A água de seu rio, outrora estancada, agora fluía viva, correndo, sentindo como o movimento lhe era caro e sagrado.
Dançou e celebrou todos os SIMs que firmou junto ao fogo da vida, do terreiro e do seu coração, prometendo a si mesma nunca mais permitir-se ferir tanto...

14.4.16

Chá das cinco


Nove anos

Três meses

Ou vinte e cinco dias...

Sorrisos recebem o reencontro prateado

Mesmo quando o vinho se torna café

Ou a noite de amantes, uma tarde quente com chá de hibisco gelado

Encontrar-te tem gosto de doce preferido

Daquele que se sabe sempre delicioso...

E o carinho de dedo que aponta o caminho

Vira o melhor do meu dia!

4.4.16

Gestação


Sem saber se o que esperava era real, ela o criou e recriou a partir de sua capacidade de amar. Se ele chegasse, viria para o lugar em que ela o esperava: onde ele já havia sido criado. Mas como não vinha ou se demorava, ela alucinava. A espera é um delírio, e este durou o tempo de uma gestação.

Começou com um encantamento. Ela recebeu a informação de que era hora de parar e ali ficar, num abraço em que sua alma poderia descansar. O brilho, lindíssimo de ouro, demonstrado por uma força superior, a convenceu. E cada aproximação trazia ainda mais encanto e beleza.

Após aceitar o plantio daquele "grãodeamor", ao abraçá-lo, galhos floridos saíam de seu coração e envolviam o dele. A surpresa daquele fato a fez recuar algumas vezes, assustada. Algo novo e mágico estava acontecendo...

Em vários momentos teve dúvidas sobre permanecer ou não ali, naquela posição... Desentendida, fadas encheram o caminho de flores, e ela passou a sentir o olhar e movimento de aproximação de seu lindíssimo com carinho, amor, cuidado, respeito, admiração, alegria e muitos abraços, que davam trégua à sua alma e coração.

Estaria apaixonada? Não era isso. Mas também não compreendia por que esperava... O outro não espera nunca! A pureza da angústia daquela espera fazia com que ela assumisse a identidade fatal daquele que aguarda o movimento alheio.

A situação de espera, pra ela que era da ação, angustiava mais do que a outros. Quis desistir. Uma, duas, várias vezes. Uma força maior a fazia ficar, por mais que não compreendesse ou houvesse alguma explicação racional. Ela demorou, mas se convenceu e aceitou.

E esteve tão conectada neste tempo, que foi capaz de sentir quando a energia de seu amado adentrou em seu campo energético. As fadas tinham lhe indicado o caminho... Ele estava chegando!

O respeito ao tempo de seus passos já a alegravam. Agora ela já sentia seus sinais. Sua presença a tocava e trespassava seu corpo. O sorriso não se desfez por uns tempos, enquanto o despertador já tocava, em vão.

Mas ele não chegou.
Os sinais foram diminuindo. 
Ela relutou. Desta vez, porque não queria viver o fim de uma história sem começo.

O tempo passou. Mais uma vez ela demorou, mas se convenceu e aceitou. Decidiu renunciar ao estado amoroso e se exilou daquele imaginário. 

Sua perda também era abstrata.

Pariu ar.

E a roda girou.

31.3.16

Ritual


Despida de qualquer julgamento, a leveza preenche e a beleza transborda em flores amarelas, presentes em cada curva de seu corpo.
 Lambuza-se de mel.
Sente um amor intenso, inteiro e doce.
Volta para a cidade sem conseguir ficar imune às paineiras que florescem e trazem as borboletas para mais perto.