23.5.17

Cântico dos cânticos



O calendário de lavanda marcava segunda-feira. Ela havia caminhado muito e passado um bom tempo naquele lugar sagrado, pleno de encantamento, em que as horas passam num piscar de olhos e enamorados se encontram, se perdem e se buscam em reencontros de outros tempos.

Do lado de dentro daquele encontro, viveu o encanto de um lugar onde as flores eram as mais coloridas e perfumadas; revoadas de borboletas azuis eram recorrentes e tudo era aroma e poesia, beleza e carinho, cuidado e amor, respeito e admiração. Num lugar em que as palavras, quando ditas, eram cuidadosamente escolhidas; onde o toque era suave e o beijo, macio. Os sabores eram doces e músicas eram cantadas em outras línguas, com voz terna, pro ouvido do coração. Um lugar onde o cuidado regia tudo o que se passava por ali. E diante de tanto amor, cuidado, proteção, respeito, admiração e confiança, ela florescia a cada dia. Flores de todas as cores brotavam de si. E por ser vista e reconhecida em sua essência, sorrisos arrematavam seu enfeitamento. Contemplavam-se...

Bastou um passo em falso para que ela mirasse o relógio e regressasse à superfície, com a pressa de quem volta de um mergulho das profundezas com pouco ar restante.
Ao sair, olhou ao redor, passou suas mãos nos olhos para tirar o excesso de água e enxergou as brumas que envolviam as águas que encobriam o bosque encantado. Seu ímpeto de sair a levou para a margem. Sentiu frio. Estava só. Molhada. Ficou ali alguns minutos, atenta a cada sensação. O dia estava branco. Não se ouvia o cantar dos pássaros no céu. O ar estava parado. Nenhuma flor enfeitava aquela paisagem.

Olhou para o horizonte e percebeu o quanto havia caminhado em outra direção. "É preciso voltar!" (a frase que ouviu dias antes de um senhor que aparecera nos seus sonhos ecoava agora em seu consciente). A certeza de um dharma e de um caminho que a esperava lhe deram forças para os primeiros passos. Teria uma longa jornada até retornar ao seu destino.

Na tentativa de contemplar o bosque submerso pela última vez, virou-se e ouviu uma música suave. Sob seus olhos, um campo repleto de flores que dançavam um adeus. Uma das flores chamou sua atenção: enquanto bailava, brilhava quando se abria. Era a mais colorida por dentro. Linda... Linda... Ela fechou os olhos, sorriu e acompanhou a dança da flor, extasiada com tanta boniteza.


Mas o dia da partida havia chegado e ela saberia conduzir aquele adeus... 
Como era amor, em seu coração não deixou a dor entrar.  Aproximou-se daquela beleza que representava todo o bosque encoberto pelas águas, abaixou a cabeça e curvou-se diante daquela flor.
(pausa) 
Respirou fundo e a reverenciou com o mais puro, profundo e verdadeiro amor que era capaz de oferecer a alguém.


Lágrimas de gratidão escorreram de seus olhos e trilharam um caminho de luz já visto em outros tempos.



(Imagem: Cântico dos cânticos- Angela Lago)

1 comment:

Unknown said...

Sempre te vejo, te leio, me delicio nas suas palavras, Como é magnífico encontrar alguém que transborda amor.